Agroindústria - O braço industrial do agro que movimenta o interior do Brasil

Agroindústria - O braço industrial do agro que movimenta o interior do Brasil 

O Brasil é reconhecido mundialmente como o terceiro maior produtor de alimentos, e isso, logicamente está intimamente ligado ao meio da agricultura empresarial, também chamado de agronegócio. 

Algo que sugere a profissionalização do meio agrícola ao longo dos últimos 50 anos, seja por meio da vinda de grandes multinacionais que enxergaram no país, o grande potencial do setor, que hoje se expressa, ou através do surgimento de outras empresas pratas da casa, que agregaram valor à produção de produtos primários do agro.

O agronegócio tal como se conhece na atualidade, tem muito respaldo essencialmente em pesquisas nas quais se tornaram possível, o surgimento de novas tecnologias, seja no melhoramento de solos através da aplicação de fertilizantes químicos, no desenvolvimento genético de novas sementes e produtos de manejo contra pragas e doenças, no aprimoramento de maquinário agrícola, com tratores, colheitadeiras, plantadeiras que computadores de bordo ligados a sistemas de GPS, o qual foi responsável pela introdução da chamada agricultura de precisão em solo brasileiro.

Com o surgimento das cooperativas agrícolas nas décadas de 1950 e 1960, essencialmente no norte do estado do Paraná, o Brasil iniciou ao processo de industrialização de suas produção primária originada do meio rural. Por meio delas, o leite, o café, a cana-de-açúcar, o milho, rebanhos de proteína animal e principalmente, a soja, passaram a ser processados industrialmente, agregando valor à produção dessas mercadorias.

Por outro lado, nota-se portanto, que existe todo um aparato logístico que presta assessoria técnica ao agronegócio no Brasil, seja na oferta de insumos ou máquinas, mas que o setor agrícola no país, ainda é muito dependente de importados. 

Agroindústria

O conceito de agroindústria no Brasil ainda está muito ou unicamente ancorado ao processamento industrial de mercadorias agrícolas primárias, produzidas no campo; nessa concepção é que se tem a industrialização do leite (queijos, requeijões e iogurtes), da soja (óleo de cozinha, farelo para rações animais, bebidas), do milho (farinhas, flocos e fubás), ou de rebanhos abatidos para a obtenção de proteína animal, seja in natura ou industrializada (salsichas e presuntos).

O setor de biocombustíveis, também é outro fator importante ligado à agroindustrialização de produtos primários, essencialmente ao redor da cana-de-açúcar e do milho, de onde se extrai o etanol. 

O tipo de etanol mais comum, o hidratado, é obtido do processo de fermentação do mosto da cana-de-açúcar e o etanol de milho, sendo deste o mais comum, o etanol anidro, é produzido a partir do esmagamento dos grãos, para a obtenção do amido, liquefação, sacarificação para só então ser feito o processo de fermentação alcóolica. O biodiesel também é outro tipo de biocombustível extraído a partir da soja.  

Embora a agroindustrialização tenha total relação com tudo o que foi mencionado à pouco, ela não se restringe a apenas a isso; como também observado antes, o Brasil ainda é muito dependente de insumos agrícolas importados, usados para a produção das mercadorias primárias originadas do campo. 

Ou seja, o Brasil não está avançando na industrialização dos insumos que ele se utiliza para a sua produção agropecuária, e que precisa importar de outros países. A indústria de agroquímicos tais como fertilizantes nitrogenados é o grande desafio nacional nesse setor, tendo em vista, que o país importa cerca de 85% desse tipo de insumo, usado para o melhoramento de solos e o aumento na produção de grãos.

A indústria de máquinas e equipamentos, usados no cultivo das lavouras, já conta com algum desenvolvimento, porém, sem maiores avanços na concepção de maquinário agrícola de maior porte; de fabricação nacional, mas com tecnologia estrangeira através de multinacionais do ramo, presentes no Brasil. 

Poucas empresas genuinamente brasileiras, participam desse mercado e que também o faz, de modo muito limitado, seja por meio de implementos agrícolas ou maquinário de apoio, tais como pulverizadores. Tratores e principalmente colheitadeiras de fabricação brasileira própria, ainda são muito restritas.

Equipamentos de GPS para a prática chamada de agricultura de precisão, também além da própria tecnologia pelo uso de satélites, ser totalmente estrangeira, os próprios equipamentos instalados no interior das cabines das máquinas agrícolas também serem totalmente de procedência importada.

No desenvolvimento de novas cultivares, nenhuma empresa privada nacional concorre com multinacionais como a alemã Bayer, detentora na marca de sementes de soja transgênica Intacta, desde que adquiriu a Monsanto junto a todo o seu portfólio de produtos em 2018; ou seja, se não fosse a estatal Embrapa, nada no setor genético de sementes, teria sido desenvolvido no Brasil.

Outro exemplo nesse sentido, é a Ceitec, conhecida pejorativamente como a empresa do chip do boi, que assim foi chamada por produzir chips de rastreabilidade para bovinos, criada em 2008 pelo governo federal para a produção de semicondutores no Brasil e que chegou a ser extinta em 2021, mas teve seu processo de liquidação revertido em 2023.

O motivo da tentativa de extinção da única empresa do Hemisfério Sul a desenvolver semicondutores, teria se dado pela simples razão de não dar lucro e as críticas que existem ao redor de empresas estatais, devido a muitas delas, serem mal geridas ou alvo de escândalos. Entretanto, o que há é ausência de instrumentos técnicos eficientes de fiscalização.

Na prática, as estatais desempenham um papel que o setor privado não se arrisca, por se tratar de investimentos caros e retornos muito longos; o agronegócio é o grande exemplo disso e a Embrapa de novo, demonstra que pelo menos no caso específico do Brasil, sem a iniciativa estatal, muito do que temos hoje, jamais seria possível. 

Exportações

É conhecimento público que o Brasil lidera a produção e a exportação de inúmeras mercadorias primárias do agro, que contudo, como também é de notório saber público, por serem de baixo valor agregado, geram poucas receitas na balança comercial brasileira.

Se a agroindustrialização, agrega valor a um produto primário, por que exportamos apenas mercadorias agrícolas in natura, e não agroindustrializados? Eis o desafio brasileiro em relação à exportação de produtos ou insumos de produção.

No primeiro caso, pode ainda ser influência da política industrial brasileira que vigorou entre as décadas de 1940 e 1980, chamada de substituição de importações, onde a preocupação era industrializar no Brasil, tudo aquilo que era importado ou comprado de outros países.

O curioso é que na questão do segundo caso, de insumos ou equipamentos que o Brasil ainda importa para o assessoramento do agro, a não ser naquilo que o país timidamente já domina no setor de máquinas agrícolas, mas que ainda está distante da tecnologia de ponta já controlada por empresas de outros países, principalmente os Estados Unidos.

Mas é no setor de etanol onde o Brasil mais se faz didático no exemplo prático sobre como é complicado ao país, agregar valor às suas exportações agroindustriais e que se reflete na situação do modelo de negócios pelo qual se firma as usinas produtoras no país. 

De acordo com o advogado Bruno Martelli Mazzo, no canal Rocha Mazzo, no YouTube, se utilizando de dados da Unica e RPA Consultoria, entidade que representa as usinas de etanol no Brasil, o país possui cerca de 432 usinas de etanol espalhada por seu território. Ele menciona a crise que se abate no setor de etanol de cana-de-açúcar, com destaque para Raísen, joint venture entre a brasileira Cosan e a anglo-holandesa Shell, que vive uma de suas fases mais sensíveis.

Destas, segundo dados extraídos, 24% estão em processo de recuperação judicial em 2024, o que corresponde a 107 usinas, do total, sendo 81 delas no centro-sul do país. Um cenário que se expressa basicamente, devido ao fato de a cadeia produtiva do etanol, ser mais direcionada ao mercado interno nacional e não para exportações. 

Por outro lado, no mesmo vídeo, Mazzo, expõe o lado promissor do negócio, através das usinas que produzem etanol à base de milho e que estão vivendo uma excelente fase; colocando o Brasil como segundo maior produtor mundial, atrás apenas dos Estados Unidos, após aumento de 40% na produção nos últimos dez anos. Em 2025, as previsões, segundo ele, é que a produção brasileira de etanol de milho, se aproxime dos 9 bilhões de litros.

Outra vantagem do etanol de milho, é a possibilidade de duas safras anuais da commodity, enquanto no caso da cana-de-açúcar, só é possível haver uma única safra por ano. Por isso, a tendência é que o etanol de milho ganhe cada vez mais protagonismo, até alcançar o mesmo patamar de produção do etanol à base de cana e a partir disso, ultrapassar a produção do etanol convencional ainda produzido em maior escala nas usinas brasileiras. 

Bruno Mazzo também traz em seu vídeo, dados do presidente da Unem, Guilherme Nolasco, entidade que representa as usinas produtoras de etanol de milho, prevendo dobrar a produção para 16 bilhões de litros até 2032. Outro fator importante citado, é que o farelo residual do esmagamento de milho para a produção de etanol, pode ser direcionado também para a produção de ração animal. 

Além disso, o fato da nova legislação brasileira prever a mistura de 30% de etanol à gasolina, no caso o anidro, aumenta ainda mais a demanda interna do produto, o qual o Brasil ainda importa muito dos Estados Unidos para essa finalidade. Mas nada sobre exportações de etanol, foi mencionado, sendo a preocupação unicamente com o mercado interno.

Enfim, o Brasil precisa traçar um plano estratégico que dê um propósito claro na agregação de valor às exportações do agro brasileiro. Principalmente naqueles setores onde as vendas de mercadorias primárias direcionadas ao mercado externo, são mais significativas, tais como café, soja e principalmente, o etanol, pois demostra ser o setor de maior potencial para a conquista de novos mercados fora do país. 

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