Ideologias econômicas - Liberalismo, globalização neoliberal, globalismo e malthusianismo ambiental

Ideologias econômicas - Liberalismo, globalização neoliberal, globalismo e malthusianismo ambiental

Ao longo da trajetória humana dentre os diferentes estágios da civilização, as sociedades sempre foram compostas por classes dominantes e classes dominadas. Para manterem seus status de controle sobre os demais, as classes dominantes se valeram de uma série de artifícios, principalmente por meio de narrativas para justificar suas condições comando.

Na antiguidade, para fazer valer seus domínios por meio de narrativas, se autoproclamavam deuses, depois afirmaram seus controles sobre os demais, como de direito divino, ou concedidos por Deus ou pelos deuses, dependendo das religiões e culturas das distintas civilizações em questão.  

Com o surgimento da civilização grega, as religiões passaram a ser um acessório complementar na afirmação de poder dentre os seus detentores junto aos dominados, em que a partir do advento da filosofia, deu à política, maior protagonismo para a afirmação de liderança na relação ao controle dos grupos de comando e seus subordinados. Receita semelhante, foi verificada no Império Romano. 

No caso específico de Roma, a legitimação de poder por meio da religião, ganhou conotação diferente, através de ato político do imperador Constantino e a fundação da Igreja Católica - ou na referendação da parte do Império ao instituto supostamente criado dois séculos antes.

Constantino adotou o cristianismo como sua religião oficial, depois de quase 300 anos de perseguição do império aos cristãos, abandonando os deuses inspirados em personagens gregos, cuja seus nomes foram adaptados ao contexto latino; ainda que Constantino só tenha se convertido à nova religião instituída por ele no império, em seu leito de morte.

Na Idade Média, após as invasões bárbaras que esfacelaram o domínio romano pela Europa, o direito divino de latifundiários sobre seus feudos foi de novo reivindicado, além de acordos políticos que garantiam outros latifúndios menores, que aqueles pertencentes ao rei, como forma de apoio a ele,  referendado pela Igreja Católica.

 A grande novidade a partir da introdução do sistema mercantilista no Século XVI e a consolidação do sistema capitalista, a partir do Século XVIII, foi o surgimento das burguesias, onde os ideais iluministas e liberais essencialmente aquelas de classe média, que se diferenciaram dos demais nichos sociais, por dispor de alguns privilégios, mas não todos.

Por meio do Iluminismo como base intelectual e filosófica secular, o direito divino ao poder foi sendo aos poucos abolido, dando espaço para outras narrativas para legitimar o poder das burguesias; o iluminismo assim, procurou legitimar o poder das burguesias, a partir de seu surgimento e através disso, abriu espaço o surgimento das ideologias econômicas, sem a necessidade de qualquer validação religiosa.

Na esteira de defesa das liberdades religiosas, surge o rompimento com o monopólio dogmático da fé com relação à Igreja Católica, embora não fosse um movimento autenticamente apenas no que concerne a conceitos teológicos, mas sob interesses financeiros básicos, com relação ao "direito divino" à cobrança de juros, através do surgimento do incipiente sistema bancário da época.

Ou seja, com a reforma protestante, não apenas o monopólio da fé foi quebrado, como também, o financeiro, já que a Igreja Católica, só permitia o funcionamento de bancos sob o domínio feudal absoluto dos Médici, de Florença; condenando todos os demais (ou seja, os concorrentes), ao fogo do inferno, pelo que era conhecido como pecado da usura, na época.  

Em meio a revoluções burguesas como a Inglesa de 1640, e Gloriosa, como resultado conclusivo da primeira em 1688, foram essenciais para que o Reino Unido se despontasse como potência industrial do final do Século XVIII e em todo o Século XIX; depois delas, através da Revolução Francesa, houve a ruptura das burguesias, que já não eram mais um grupo único, mas dual, entre aquilo que se passou a conhecer por esquerda, representada pelos jacobinos, e direita, pelos girondinos.

Assim, em meio a rupturas e rompimentos que se desdobraram em novos grupos de atores que passaram a dividir o controle sobre as massas dominadas, como nova configuração social pós feudalismo, junto às classes dominantes tradicionais, geralmente com poderes afirmados em narrativas religiosas sobre "direitos divinos", os demais grupos menores mais secularizados, se firmaram em correntes de pensamento mais filosóficas e autônomas da Igreja Católica ou de qualquer outra denominação cristã, dita "protestante".

Ideologias econômicas

O liberalismo clássico fundado no Século XVIII, sob a perspectiva de Adam Smith e guiou as duas primeiras fases da Revolução Industrial, entrou em declínio com as crises sociais que culminaram na revolução bolchevique, à qual deu origem a União Soviética na Rússia, em 1917 e a introdução prática, ainda mais desastrosa do socialismo marxista que ao contrário do que muitos pensam, não propunha um novo modelo político, mas sim, outro sistema econômico, sem a existência da propriedade privada e a adoção dos meios coletivos de produção.

Com o tempo, foi sequestrado pelas classes dominantes, como sua principal linha filosófica, contudo, restrita somente a amplitude econômica ou das liberdades econômicas, assentado no direito à livre iniciativa e de propriedade; na prática, como direitos legítimos apenas dos ricos, ou das próprias classes dominantes em si.

E por que o liberalismo clássico ruiu?

Apesar de ser fundamentado em uma boa proposta, envolta nas liberdades pregadas pelo liberalismo filosófico mais abrangente de John Locke e Jean-Jacques Rousseau, o liberalismo econômico ruiu, justamente por se firmar no poder político associado ao poder financeiro, como resultado da migração dos antigos nobres feudais, para atividades de comércio mercante e o trabalho artesanal manufatureiro, com a especialização e a divisão das tarefas, de respectivas funções nas linhas de produção, até o surgimento da indústria com a máquina a vapor e suas evoluções tecnológicas.

Ou seja, o liberalismo clássico, na verdade, foi sequestrado enquanto filosofia ou ideologia de narrativa econômica, para manter o domínio dos nobres feudais que antes se firmavam sob a posse da propriedade da terra como de direito divino, e passou a manifestar esse mesmo direito sobre a propriedade privada do capital mercante ou industrial, mas adaptados sob preceitos liberais construídos pelos pensadores iluministas do Século XVIII.

Social-democracia e o Estado de bem-estar social

O desastre social provocado pelo liberalismo no início do Século XX, que culminou nas duas grandes guerras mundiais, obrigou o capitalismo a se reorganizar a partir das Conferências de Bretton Woods em 1944, demandando maior protagonismo do Estado na economia, com políticas de bem-estar social, inspiradas no socialismo, através da chamada social democracia.

Apesar de vigorar ainda hoje, principalmente nas economias escandinavas europeias, o Estado de bem-estar perdeu vigor na maior parte do mundo, após as crises fiscal americana - resultado dos enormes gastos militares e de exploração espacial da guerra fria, além da crise do petróleo, dos anos anos 1970.

O neoliberalismo e o advento da globalização

O neoliberalismo foi sendo construído gradualmente, desde a década de 1950, enquanto o bem-estar ainda vivia seu auge, concomitante aos primeiros indícios de globalização, com o surgimento de organismos internacionais como a ONU e a OCDE, além daquelas vinculadas a Bretton Woods como o Banco Mundial e o FMI. A internacionalização das empresas com multinacionais sediadas nas economias centrais, e unidades de produção nas economias periféricas, propiciou em remessas vultosas de lucros para suas matrizes, nos países ricos.

A primeira grande ação neoliberal, foi a ruptura parcial dos Estados Unidos com Bretton Woods, através da adoção do fim da paridade ouro-dólar em 1971, no governo Richard Nixon, sob orientação de Milton Friedman, criando o dólar fiduciário, fazendo da própria moeda em si, uma commodity, que podia ser negociada concorrendo com outras opções de investimento, assim como o próprio ouro ou ações de empresas listadas nas bolsas de valores.

Com isso, a crise fiscal que já era prevista, devido ao aumento na emissão de dólares para custeios com a guerra fria, resultaram na narrativa perfeita de austeridade com as contas públicas, a ser adotada na década seguinte, nos Estados Unidos; a redução de impostos para as empresas, sugeriam uma suposta redução do papel do Estado na economia, em contrapartida ao aumento da taxa básica de juros, com vistas a combater a estagflação ainda vigente e iniciada na década anterior de 1970.

Com a crise no saldo em transações correntes de todos os demais países, devido ao encarecimento nas importações de petróleo e a inflação global em decorrência disso, ficou fácil exportar a narrativa neoliberal para o restante do mundo, com a qual se pregava reformas em que houvesse uma diminuição do papel do Estado na economia, através da privatização de empresas estatais, redução de gastos para equilíbrio das contas públicas, onde as políticas de bem-estar social foram as primeiras a serem sacrificadas, essencialmente previdenciárias, livre comércio, com abertura das economias a produtos importados principalmente com o uso das próprias instituições de Bretton Woods, o FMI e o Banco Mundial, como reforço.

Além disso, ocorreu uma maior liberalização dos mercados de capitais, o que gerou vários contratos de risco dos chamados derivativos, lastreados ou vinculados ao valor de um outro contrato específico, gerando bolhas financeiras em que somente meia dúzia de mega especuladores das bolsas de valores lucravam.

Por meio disso, fortunas individuais privadas que antes somavam a casa dos milhões, passaram aos bilhões de dólares, em questão de décadas, gerando uma nova casta de super ricos globalistas, em que somente eles, desfrutavam do que era chamado de globalização econômica; uma forma suave de se referir ao liberalismo, após o hiato dos 30 anos gloriosos das políticas social-democratas de bem estar social, que vigoraram mais força na Europa, entre 1945 a 1975.

O neoliberalismo de economia globalizada entrou em colapso, com a crise de 2008, onde contratos podres ligados ao mercado de derivativos imobiliários, conhecidos como subprime, derreteram o valor de mercado dos maiores bancos e corretoras dos Estados Unidos, devido ao excesso de desregulamentação do mercado de capitais, iniciado nos anos 1980, por orientação de Milton Friedman. 

A crise de 2008 teve abrangência global e chegou a ser comparada ao crash da bolsa de valores de Nova York, de outubro de 1929, porém, com danos muito menores, devido a ação rápida de governos e bancos centrais, principalmente dos Estados Unidos, para a atenuação dos danos.

Globalismo e malthusianismo ambiental

Com o fortalecimento das classes dominantes globalistas, que cooptaram governos e outras instituições de Estado em atendimento aos seus interesses econômicos, iniciou-se uma corrida por atos de filantropia ou ao financiamento de causas vistas como nobres, porém de abrangência bastante duvidosa e de impacto social muito questionável, por representar pequenas parcelas progressistas da população, em detrimento da grande maioria conservadora, sob aspectos morais e sociais. 

Através disso, fundações financiadas por grandes magnatas dentre os maiores bilionários do mundo, passaram a intermediar recursos junto a ONGs, sindicatos ou partidos políticos mais identificados com a esquerda, no sentido de cooptar essas entidades para fazerem exatamente o contrário que os movimentos progressistas do passado pregavam: o de jamais se associarem aos detentores do grande capital.

A narrativa do empreendedorismo também foi muito usada como método de dispersão de militância sindical, onde pautas trabalhistas foram aos poucos sendo abandonadas, para que outras, ligadas ao identitarismo de causa, pudessem ser adotadas. Biografias como as de Steve Jobs e Bill Gates, ganharam as telas do cinema, como forma de reforçar a narrativa ao redor de histórias de sucesso empreendedor.

Desse modo, ocorreu o fim do proletariado e o surgimento de distintos níveis de burguesias, divididos em: pequena, média e alta burguesias, ou o que seria visto no Brasil como classes E e D (pobres), C e B (classe média) e A (rica); teleguiados por narrativas ao redor do racismo, feminismo (com destaque à luta pelo direito ao aborto irrestrito), a ideologia de gênero dentre as várias facetas de expressão do homossexualismo e à pauta ambiental.

Essas pautas são usadas como modo de distração das massas, para que a extrema concentração de renda entre os bilionários, seja esquecida por grande parte da população. Confira a seguir as cinco maiores fortunas do mundo:

Elon Musk - US$ 423 bilhões

Mark Zuckergerg - US$ 224 bilhões

Jeff Bezos - US$ 220 bilhões

Larry Ellison - US$ 206 bilhões

Warren Buffett - US$ 158 bilhões

Juntas, as cinco maiores fortunas do planeta somadas, equivalem a quase o PIB da Holanda ou aproximadamente, metade do PIB do Brasil, em cerca de US$ 1,27 trilhões. A previsão é que em 2027, Elon Musk, atualmente com uma fortuna ao redor de US$ 423 bilhões, se torne o primeiro trilionário do mundo.

Dentre todas as pautas defendidas pelos mega bilionários, a mais perigosa demonstra ser a ambiental, por se amparar em estudos científicos financiados por alguns deles, que usam a causa, interessados na narrativa das mudanças climáticas, como forma para se implantar uma agenda de restrições ao uso de recursos naturais do planeta da parte das grandes massas de pessoas, o que tendencia a população global a uma onda de empobrecimento em massa. 

A argumentação para esse tipo de discurso, é a de que 8 bilhões de seres humanos num planeta do tamanho da Terra, seria um número extremamente excessivo, o que obrigaria a classe dominante global, formada pelos mega ricos, a se arvorarem da incumbência de "salvar o planeta", nem que fosse preciso, que algumas vidas tivessem de ser sacrificadas em nome de um bem maior.

Isto é, são ideias inspiradas em teorias antigas tais como o malthusianismo e que foram revigoradas agora, em nome das pautas ambientais, tais como o controle populacional ou a redução gradual da população mundial para algo em torno de 600 ou 700 milhões de habitantes. 

Enfim, como se pode ver, as classes dominantes, se valem de narrativas para se manterem no controle e no poder global, infelizmente, o liberalismo revisitado por Milton Friedman, abriu a caixa de pandora; e as inteligências artificiais, dão o toque final de tudo, visto como "teorias da conspiração", na condição de cereja do bolo apocalíptico. 

Assim, a diferença entre globalização e globalismo, se dá da seguinte maneira: 

Enquanto globalização se ancora no desenvolvimento econômico como forma de alcance de bem-estar, por meio do trabalho, o globalismo, entende o próprio trabalho e o bem-estar, como ameaças ao meio ambiente, e que portanto, devem ser contidos ou controlados, como modo de garantir a sobrevivência das espécies no planeta, limitando acesso a produtos e serviços, em função de uma suposta limitação de recursos naturais usados como matérias-primas para o processamento industrial e a produção em massa, destinada ao consumo humano. 

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