Apagão de mão de obra - Mitos e fatos
Apagão de mão de obra - Mitos e fatos
Muito se tem visto, queixas no que se refere a um suposto apagão de mão de obra, verificado na dificuldade das empresas em contratar trabalhadores para funções operacionais em suas respectivas áreas de atuação. Em contrapartida trabalhadores argumentam que as condições de trabalho, bem como ainda, a remuneração, não são satisfatórios; o que acaba assim, em um jogo de narrativas ambivalentes.
São muitas as causas apontadas pelos empresários, para a suposta escassez de mão de obra, ainda que a população economicamente ativa do país, alcance a marca de 177,4 milhões de pessoas, onde 110,7 milhões de trabalhadores realmente desempenham algum tipo de atividade laboral em seus respectivos ramos de atuação; e outros 66,7 milhões de pessoas, mesmo que estejam em idade de trabalhar, estejam fora da força de trabalho ou vivendo na informalidade.
De acordo com dados divulgados, na última sexta-feira, 27, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE - através da chamada PNAD - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, contínua, a taxa de desemprego trimestral, encerrada em maio de 2025, era de 6,2%, e corresponde a cerca de 6,8 milhões de pessoas desocupadas, uma das mais baixas da história.
Portanto, no universo da população em idade produtiva no Brasil, 103,9 milhões estão desempenhando algum tipo de atividade remunerada; desse total, 39,8 milhões estão empregadas por meio de registro em carteira CLT, e 13,7 milhões de pessoas, correspondem a outros trabalhadores que mantém atividades profissionais, no regime informal, ou seja, sem carteira assinada; outros 13 milhões, trabalham no setor público.
Além disso, o IBGE registrou que a taxa de subutilização de mão de obra, é de cerca de 17,4 milhões de pessoas; isto é, pessoas que trabalham em ocupações precárias e que não cumprem uma jornada diária completa, tal como outros trabalhadores formais e informais.
Nesse oceano de 66 milhões e setecentas mil pessoas, além das outras 17 milhões e quatrocentas, subocupadas citadas anteriormente, que poderiam estar desempenhando algum tipo de trabalho, as empresas brasileiras, ainda afirmam ter dificuldades para encontrar pessoas para trabalhar.
Dentre as maiores causas para a insatisfação do empresariado brasileiro no que se refere a pouca disponibilidade de trabalhadores, também está o baixo nível de qualificação da mão de obra, embora a qualidade do ensino regular da educação tenha um histórico recorrente de péssima qualidade em que jamais se viu qualquer mobilização empresarial, no sentido de melhorar as condições de aprendizado dos estudantes das escolas públicas.
Os empresários apontam ainda, a indisponibilidade dos jovens na procura por cursos de especialização técnica que lhes garantam um melhor preparo para o desempenho de funções, em contradição com a realidade à qual expõe que a maioria dos profissionais, aprenderam seus ofícios de modo informal, ao terem iniciado suas vidas profissionais como aprendizes auxiliares.
O maior exemplo disso, é o setor de construção civil, onde a imensa e maciça maioria dos profissionais que aprenderam o ofício de pedreiro, simplesmente adquiriram a formação necessária para desempenhar suas funções, iniciando como ajudantes de obras, ou também conhecidos como serventes, e que aos poucos, à medida em que conquistam a confiança de seus contratantes, vão aprendendo técnicas de manufatura construtiva até serem considerado aptos por outros profissionais, a seguirem no ramo, obtendo registro profissional CLT ou até, abrirem um CNPJ-MEI, e trabalharem de forma autônoma, como forma de comprovação de experiência no ramo.
A mesma situação é vista em boa parte de oficinas mecânicas de automóveis, onde os profissionais também iniciam suas trajetórias como jovens aprendizes informais, até serem reconhecidos como pessoas com bagagem técnica suficiente para seguir como titulares no ramo mecânico automotivo.
Portanto, mais de 95% da mão de obra, é formada sem qualquer curso técnico gerido ou reconhecido por entidade gabaritada para essa função; algo que traz intrínseco, um problema logístico para formação profissional e que a imensa maioria dos empresários, não demonstra interesse em ao menos propor políticas que melhorem essa dinâmica, já que se dizem, os maiores prejudicados pela má formação profissional da massa laboral do país.
O desinteresse por profissões tradicionais da parte dos trabalhadores mais jovens, é outro fator apontado como sendo um problema que afeta na disponibilidade de mão de obra, dentro da perspectiva das empresas; a construção civil também é apontada como a mais problemática nesse sentido, por envolver condições desafiadoras, tais como o trabalho em grandes; alturas ou relacionadas a ergometria, tendo em vista, as técnicas ainda rudimentares de construção no Brasil, em relação a outros países.
Há ainda, questões relacionadas ao êxodo ou evasão de profissionais para outros ramos de atuação, que agravam ainda mais, a suposta escassez de mão de obra, já que pela lógica de mercado, se um bem ou serviço tem sua oferta reduzida, logo seu preço deveria subir, algo que curiosamente, no caso dos salários, não ocorre no Brasil; pois possivelmente, a alegação de baixa qualificação laboral, impediria que os trabalhadores obtivessem melhores remunerações por seus trabalhos.
Um bom exemplo disso, também está publicado na PNAD Contínua do IBGE, sobre os dados trimestrais do desemprego, divulgados na última sexta-feira, 27, que se dá no aumento do número de pessoas às quais passaram a trabalhar por conta própria, alcançando a marca de 26,2 milhões de trabalhadores, os quais decidiram não ter um patrão.
E a maior prova, é o aumento no registro de novos CNPJotas-MEI, que atingiu um total com mais de 15,7 milhões de trabalhadores que se tornaram nanoempresas, prestadoras de serviços ou minicomerciantes de feiras ou camelôdromos. Além disso, o número de motoristas de aplicativo que cresceu 35% entre 2022 e 2024, totalizando 1,7 milhão profissionais do transporte personalizado de passageiros.
Programas sociais e preconceito social
Outro grupo de empresários, aponta programas sociais de renda básica, como um importante elemento, que na visão deles, também seria empecilho para a contratação de mão de obra, o qual estaria gerando suposta escassez de trabalhadores, embora, como já mencionado, o país tenha 177,4 milhões de pessoas em idade de trabalhar e destes, 110,7 milhões, estão economicamente ativos, isto é, se não trabalham, estão desempregados e que como vimos, se trata de apenas 6,2% da força de trabalho brasileira e corresponde a 6,8 milhões de pessoas, em busca de trabalho.
Uma crítica muito comum nas redes sociais e até em entrevistas concedidas por empresários a veículos da grande imprensa brasileira, é que a taxa de desemprego estaria extremamente baixa, devido à metodologia do IBGE, que não considera beneficiários de renda básica como desempregados, e isso, faria o número de pessoas à procura de trabalho, se reduzir artificialmente. Algo que pede uma grande reforma, tanto no mecanismo de concessão dos benefícios, quanto ao modelo metodológico estatístico que mensura o desemprego no país.
Atualmente a renda básica disponibilizada pelo governo federal, atende a cerca de 20,8 milhões de famílias e em 2024, gerou um gasto anual ao Estado Nacional Brasileiro, na ordem de R$ 168,3 bilhões ou cerca de R$ 14,02 bilhões mensais, atendendo ainda, grupos indígenas e quilombolas, os quais o mercado de trabalho nutre verdadeiro desprezo por acreditar que sejam todos desqualificados para trabalhos simples.
Enfim, o programa governamental de renda básica, atende a uma faixa de público, à qual via de regra, já é regularmente descartada nos processos seletivos para contratação de pessoal das empresas, por ser considerada de escolaridade ou qualificação profissional insatisfatórios, não restando outra opção para essas pessoas, a não ser ficarem eternamente dependentes do benefícios financeiros do governo; há registros de famílias que estão há cerca de dez anos, vivendo da renda básica nacional.
Em contrapartida, o que é muito pouco discutido nesse universo dos beneficiários de renda básica, é que boa parcela precisa encontrar algum tipo de ocupação, geralmente informal, para complementar a renda familiar, já que só o benefício em si, não é suficiente para a subsistência mínima de uma família pobre; em razão disso, muitos trabalham, geralmente na coleta de materiais recicláveis, com suas carroças improvisadas empurradas por eles próprios nas ruas das grandes cidades, irritando motoristas de alta classe média, por causar lentidão no trânsito.
Qualificação profissional e produtividade do trabalho
Curiosamente, mesmo com tantas reclamações do empresariado com relação à suposta falta de mão de obra, os salários, que é o preço de referência definido conforme o regime de oferta e demanda, não se elevam na mesma proporção que a escassez de trabalhadores alegada pelas empresas.
Por outro lado, os empresários alegam que os salários são baixos, essencialmente por três razões: a escolaridade e a qualificação profissional insatisfatórias, além da baixa produtividade do trabalhador, que também seria produto dos dois primeiros fatores anteriores.
O debate sobre escolaridade e qualificação profissional é difuso e mal elaborado entre os empresários, tendo em vista que reclamam muito da qualidade da mão de obra, mas muito pouco se movimentam no sentido propor e cobrar políticas públicas cartesianas que garantissem melhores performances escolares no ensino público e qualificação profissional.
Um bom exemplo disso é o Sistema S, formado por Senai, Senac, Senat, Senar e seus equivalentes ditos "sociais", Sesi, Sesc e Sest, gerido pelas federações estaduais da indústria que compõe as confederações nacionais, da indústria - CNI; do comércio - CNC e da agricultura - CNA.
Em tese, o Sistema S, cuja personalidade é juridicamente privada, recebe recursos públicos do governo para garantir qualificação profissional de trabalhadores, mas a se observar as queixas dos empresários nesse sentido, o modelo tem deixado muito à desejar, gerando frustrações também para trabalhadores que desejam se qualificar, mas precisam arcar com custos de formação, nos cursos ofertados pelas escolas do Sistema S espalhadas pelo país. E o pior, muitos se aventuram a cursar formações profissionais, sem nenhuma garantia de que serão contratados por alguma empresa, relacionada ao ramo o qual buscou se qualificar.
De acordo com especialistas, a baixa escolaridade e qualificação profissional dos trabalhadores, tem impactado nas taxas anuais de produtividade no trabalho do país. Em média a produtividade no trabalho variou ao redor de 0,1% ao ano entre 2015 e 2023, conforme dados da Organização Internacional do Trabalho - OIT. Porém de acordo com o jornal Folha de S.Paulo, de fevereiro de 2025, também com dados da OIT, o crescimento da produtividade em 2024, em relação a 2023, foi de 3,9%.
Além disso, outros instrumentos de mensuração da produtividade, são importantes para avaliar, não apenas o desempenho dos trabalhadores, mas a eficiência dos meios produtivos das empresas de um modo geral. A Produtividade Total dos Fatores - PTF - mensura outros elementos como inovação tecnológica, infraestrutura, políticas públicas, além do próprio capital humano.
Ou seja, através do PTF, é possível introduzir políticas que garantam o crescimento econômico, a competitividade e a tomada de decisões, no sentido de tornar as empresas mais eficientes de um modo geral, e não apenas, o desempenho de trabalhadores como único elemento responsável pela melhora na performance produtiva, e que isso não seja alegação para manter salários baixos.
Portanto, sem investimento em tecnologia e na especialização de capital humano, as empresas continuarão ineficientes, e para isso, é preciso maior atenção na melhora da competitividade global que abram novos mercados exportadores.
Todos são unânimes com relação ao investimento massivo em educação e na profissionalização de trabalhadores, porém muito pouco em esforços materializados ao redor desse objetivo são notados, principalmente da parte daqueles que mais se queixam com relação ao despreparo da mão de obra, como um todo.
Desse modo, as empresas revertem a lei da escassez que lhes deveria gerar maiores custos com salários, em seu próprio benefício, pois enquanto buscam o profissional perfeito, (que não existe), achatam salários na alegação de que o preparo e o rendimento ocupacional dos trabalhadores seria sempre insuficiente e ruim, na proporção em que muitos casos, funcionários rasos, desempenham funções qualificadas, recebendo salários como operários "chão de fábrica", ou até aprendizes, com promessas informais de promoção para cargos de liderança. Algo inclusive, vedado pela lei trabalhista.
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