O futuro do dólar
O futuro do dólar
O dólar, também conhecido como dólar americano, é a moeda oficial dos Estados Unidos e utilizada no mundo inteiro, tanto em reservas internacionais, como em livre circulação em alguns países. Atualmente, sua expedição é controlada pela Reserva Federal dos Estados Unidos.
O nome dollar deriva da palavra táler, uma moeda de prata cunhada pela primeira vez em 1518, com prata extraída das minas situadas em torno da cidade de São Joaquim, na Boêmia.
A moeda americana, assumiu o status de reserva global de valor, a partir dos acordos de Bretton Woods em 1944, desbancando assim, a libra esterlina, moeda britânica que até então, era usada como referência para transações internacionais.
O dólar só adquiriu esse patamar, devido ao fato de o Reino Unido, ter ficado sem reservas de ouro que lastreasse a libra para se manter no privilégio de moeda para uso global, sendo que naquela ocasião, os Estados Unidos, reuniam o maior percentual do metal.
Atualmente, o dólar é aceito em pouco mais de 80% das transações internacionais; o que inclui como parte de reservas internacionais em posse dos bancos centrais pelo mundo, operações sobre importações e exportações, além de ser usado como aferição de valor sobre saldo em transações correntes dos diversos países ou precificação de commodities com cotações nas principais bolsas de valores do mundo.
História do dólar
O dólar dos Estados Unidos foi instituído através da chamada Lei da Moeda em 1792; entretanto, 17 anos antes, o então Congresso Continental, um tipo de colegiado legislativo com algumas funções executivas, já que não existia o cargo de presidente da república, iniciou a emissão de papel-moeda em 1775 com a finalidade de financiar a guerra pela independência. A primeira moeda oficial das então Treze Colônias era o continental.
Com a grande emissão de continentais para cobrir os custos com a guerra da independência das Treze Colônias da América do Norte, fez com que a primeira moeda a circular nos Estados Unidos, perdesse até 1/4 de seu valor nominal original. Benjamin Franklin, o mesmo estampado nas cédulas de 100 dólares, observou que a desvalorização do continental, se fez como que uma espécie de imposto pelo pagamento da independência.
Em 1781, Robert Morris, que era superintendente de finanças dos Estados Unidos, foi o principal responsável pela criação do primeiro banco do país, e que serviu como autoridade monetária para controle na emissão de moeda. O Banco da América do Norte, também teve a contribuição de Alexander Hamilton, que atualmente estampa a cédula de 10 dólares.
Houve emissão de títulos públicos de dívida onde um lote com 1000 ações, equivalia a US$ 400; Willian Bingham, possivelmente o homem mais rico dos Estados Unidos na ocasião, adquiriu cerca de 9,5% das ações inicialmente emitidas. Contudo, o governo federal americano, acabou adquirindo 63,3% das ações do banco, se tornando acionista majoritário e portanto, fazendo do banco, uma entidade financeira estatal, através de empréstimos em ouro feitos junto à França e Holanda.
Com a capitalização, fruto de grandes depósitos em ouro e prata, formou reservas suficientes, o que possibilitou assim, a emissão das primeiras cédulas de dólares, lastreados a esses metais fiduciários sob custódia do Banco da América do Norte.
A partir de 1783, vários estados promulgaram leis que permitiam o uso dessas cédulas para o pagamento de impostos, o que deu característica de curso legal a essas notas emitidas.
O fato de Hamilton ter sido um dos financiadores da guerra pela independência dos Estados Unidos teria lhe dado alguns privilégios junto ao banco, o que gerou algum atrito com as autoridades da Pensilvânia, tornando-o um banco estadual, eliminando sua condição de entidade financeira nacional. Dez anos depois, em 1791, foi criado o First Bank of United States, para fazer o papel de banco central; já o Banco da América do Norte, foi privatizado e depois extinto em 1929.
Ouro antes e depois do Acordo de Bretton Woods
O século XX começou sob o padrão-ouro, em uso desde 1879: esse sistema de câmbio fixo permitia que os países convertessem suas moedas em uma quantidade específica de ouro. Naquela época, a libra esterlina era a principal moeda do mundo. Mas, com a Primeira Guerra Mundial, o sistema começou a se enfraquecer.
Em 1934, a Lei da Reserva de Ouro dos EUA fixou o preço do ouro em US$ 35 a onça (cerca de 31 gramas). Entre 1944 e 1971, ocorreu o período dos acordos de Bretton Woods: de todas as moedas, apenas o dólar era conversível em ouro e, portanto, as duas seguiam praticamente a mesma curva.
Com o fim do padrão ouro-dólar, o preço do metal nobre explodiu e passou de US$ 35 por onça-troy em 1971, para cerca de de US$ 850 em 1980. Atualmente, gira ao redor de US$ 3.300, conforme cotação de 27 de maio de 2025.
Bancor: a proposta de Keynes para moeda global
O bancor foi ideia do famoso economista britânico, John Maynard Keynes, que participou de Bretton Woods, como principal negociador representante da delegação de seu país, o Reino Unido. Nessa altura, Keynes era o economista mais respeitado naquele meio e considerado o grande guru da economia mundial, devido a seus trabalhos sobre desequilíbrios econômicos que levaram à Crise de 1929 e à consequente Grande Depressão dos anos 1930, além das duas grandes guerras globais.
Keynes estava convencido de que as duras e rigorosas sanções econômicas impostas à Alemanha no período entreguerras, ou seja, após a Primeira Guerra Mundial, gerou uma crise humanitária naquele país, sendo por isso, a principal razão de descontentamento que levou os nazistas ao poder e maior incentivo a ascensão de Hitler.
Keynes também sabia que os desequilíbrios no comércio global devido a tarifas e depreciação artificial de moedas nacionais, tinham prejudicado exportações e importações internacionais, além da confiança entre governos e povos.
O desejo de Keynes era que todas as nações pudessem prosperar por via da produção e do comércio global e para isso, pensou em uma moeda única e conversível para todos. O bancor seria a moeda concebida por Keynes para esse fim. Contrário a isso, os Estados Unidos se utilizou de toda a sua influência como anfitrião do evento que delinearia, o futuro do capitalismo global, após a Segunda Guerra Mundial, que ainda estava em curso na ocasião.
A impossibilidade de continuidade do uso da libra esterlina como meio de reserva global para o comércio internacional, foi o que motivou John Maynard Keynes a sugerir uma moeda neutra, e não o dólar, para essa finalidade, conforme aponta muitos autores que escreveram publicações sobre aquela conferência, realizada nos Estados Unidos. Harry Dexter White, o maior antagonista de Keynes em Bretton Woods, foi assim vitorioso com a introdução do dólar, na condição de reserva global de valor para transações internacionais.
O dólar na atualidade
Em 2023, haviam cerca de US$ 118,2 trilhões de dólares em circulação em todo o mundo; o fato portanto de o dólar se tratar de uma reserva global de valor, faz com que a maior parte dos países, o utilize como lastro para manter o valor de suas moedas locais, através de seus respectivos bancos centrais. Veja a seguir a composição das 20 maiores reservas internacionais em dólar do mundo:
A China é a maior detentora de reserva em dólares com um estoque sob custódia de seu banco central, ao redor de US$ 3,3 trilhões; em seguida vem o Japão com cerca de US$ 1,2 trilhão; depois a Suíça, com US$ 795 bilhões; a Índia com US$ 574,5 bilhões; a Rússia com US$ 442,5 bilhões; Arábia Saudita com US$ 436,5 bilhões; Hong Kong com US$ 425,4 bilhões; a Coreia do Sul com a oitava maior reserva, em cerca de 414 bilhões; o Brasil em nono, com US$ 346,6 bilhões; Singapura, após o Brasil com reservas em torno de US$ 344,5 bilhões.
Os Estados Unidos, apesar de ser o emissor do dólar, possui a décima primeira maior reserva de sua própria moeda em custódia de seu banco central, o Federal Reserve, também conhecido pelas iniciais Fed. O total de reservas em dólares sob poder do Fed é de US$ 234,1 bilhões. Isso talvez seja porque a maior reserva de ouro do mundo, seja dos Estados Unidos.
Atualmente o Federal Reserve tem sob sua custódia, algo em torno 8.133 toneladas de ouro, ou cerca de US$ 869 bilhões, numa cotação ao redor de US$ 3.300,00 por onça-troy. Entretanto, é importante lembrar que as reservas de um banco central, são formadas ainda, por uma cesta de outras moedas nacionais estrangeiras, além de títulos de dívida pública de outros países.
Crises de confiança e os petrodólares
O sistema de petrodólares se originou no início dos anos 1970, na esteira do colapso de Bretton Woods. O presidente Richard Nixon e seu secretário de Estado, Henry Kissinger, temiam que o abandono do padrão ouro internacional sob o acordo de Bretton Woods.
Combinado com um crescente déficit comercial dos EUA e uma dívida maciça associada à Guerra do Vietnã em curso, causasse um declínio na demanda global relativa do dólar americano.
Em uma série de encontros, os Estados Unidos - representados pelo então secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger - e a família real saudita fizeram um acordo. Os Estados Unidos ofereceriam proteção militar para os campos de petróleo da Arábia Saudita e, em troca, os sauditas fixariam o preço de suas vendas de petróleo exclusivamente em dólares dos Estados Unidos.
Em outras palavras, os sauditas deveriam recusar todas as outras moedas, exceto o dólar dos Estados Unidos, como pagamento por suas exportações de petróleo.
Em 1975, todas as nações produtoras de petróleo da OPEP concordaram em precificar seu petróleo em dólares e investir os lucros do petróleo excedente em títulos de dívida do governo dos EUA em troca de ofertas semelhantes pelos EUA
Atualmente, as elevações nas tarifas de importação da parte do governo dos Estados Unidos, tem provocado uma desvalorização global do dólar; o temor não se dá essencialmente ao redor de uma desconfiança generalizada em relação ao próprio dólar, mas do receio de uma recessão global, puxada pelos Estados Unidos, devido ao suposto arrefecimento do comércio internacional provocado pelo governo americano e que se reflete na moeda dos Estados Unidos.
O lado positivo da desvalorização do dólar no mundo inteiro, é que a inflação global tende a se arrefecer, além disso, o temor de uma recessão mundial, também tem puxado os preços das principais commodities cotadas em dólar, também para baixo, o que ajuda a reduzir ainda mais, as expectativas de inflação entre os países do globo, o que pode levar a uma redução generalizada sobre as taxas básicas de juros praticadas pelos respectivos banco centrais pelo mundo.
Isto é, a suposta recessão esperada por muitos economistas, devido às tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos a outros países, inclusive parceiros e aliados de longa data, pode provocar o efeito inverso, que o verificado na crise de confiança do dólar com o fim da paridade com o ouro, as crises do petróleo e o acordo com os sauditas em relação aos petrodólares.
O abandono gradual dos países ao uso do dólar
Em 2000, o Iraque foi o primeiro a iniciar o movimento de abandono do dólar para negociar o petróleo extraído em seu território, passando a adotar o euro. Em 2003, após a invasão americana àquele país, o petróleo iraquiano voltou a ser negociado em dólares.
O Irã, outo inimigo histórico dos Estados Unidos, também decidiu comercializar seu petróleo em ouro, euros e ienes, ainda que o dólar não tivesse sido totalmente abandonado nas negociações. Ou seja, a partir daí, surgiu um movimento conjunto de outros países do Oriente Médio, no sentido de terminar com os petrodólares, ou com a exclusividade e hegemonia do dólar, nas comercialização de seus petróleos.
Após o surgimento dos Brics+, formado originalmente por Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul, além de outros seis países tais como Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia e Irã, surgiu a sugestão da possibilidade de adoção de uma moeda própria do bloco. A proposta teria provocado a ira do governo americano que prometeu sanções econômicas e boicote aos países do Brics.
Tendência global de redução ao uso do dólar
Ainda que os Estados Unidos, tentem forçar o uso compulsório do dólar por questões de ordem prática, geopolítica, geoeconômica ou mesmo por poder de dissuasão militar, a tendência que o dólar deixe gradualmente de ser usado em transações internacionais.
A propensão é que num período em torno de 40 anos no futuro, haja o surgimento de moedas regionais, tais como o euro, em outras partes do mundo, ou mesmo, através de grupos geoeconômicos, como o próprio Brics, já mencionado.
Além disso, o euro também pode vir a ganhar algum destaque e chegar a substituir o dólar em boa parte das negociações internacionais. Principalmente em acordos comerciais entre a União Europeia e outro blocos econômicos, tais como o Mercosul.
Enfim, o dólar pode ainda ser hegemônico, mas à medida que outras economias globais, venham a dividir a liderança com a economia americana, a tendência é que outras moedas assumam parte das funções que o dólar desempenha na atualidade.
Mas uma coisa é certa, o dólar ainda está em seu mais pleno vigor e dificilmente, os Estados Unidos aceitarão perder a força de possuir uma moeda aceita mundialmente. Tudo depende, de como o governo americano irá reagir, se com diplomacia ou com rispidez e hostilidade; algo que possivelmente seja a razão para um possível próximo conflito bélico global.
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