Globalização 2.0 - Enfim, o tardio divórcio dos governos com o liberalismo
Governos de economias centrais, como os Estados Unidos, agora tentam reverter os efeitos colaterais provocados pelo neoliberalismo iniciado nos anos 1980, tal como a desindustrialização, que é o foco numa tentativa de redesenho do panorama econômico global. Enquanto em países latinos, como o Brasil, o desenvolvimentismo populista de esquerda, tenta fazer um rompimento superficial e sem compromisso com resultados longos e duradouros.
A busca por redução de custos, principalmente ao redor de salários, fez boa parte das empresas americanas fecharem suas plantas industriais nos Estados Unidos, para transferi-las para outros países, em desenvolvimento, essencialmente a China. Com a desindustrialização, a mão de obra especializada da indústria, migra para atividades de menor valor agregado, gerando um efeito de retrocesso econômico de longo prazo, extremamente danoso para qualquer economia.
Desse modo, ainda que as tecnologias fossem desenvolvidas nas economias centrais, e os produtos dessas patentes, passaram a ser produzidos nos países asiáticos, em função dos custos, extremamente baixos com mão de obra quase escrava, propiciou enormes ganhos de escala para as empresas dos países desenvolvidos, com indústrias de montagem nas economias em desenvolvimento na Ásia. Mas não para a economia nacional de países como os Estados Unidos.
Concomitante a todo esse processo, desde que o dólar passou a ser uma moeda fiduciária, ou seja, deixou de ser lastreada ao ouro, a solução encontrada para que a moeda norte-americana não fosse abandonada pelos demais países, como divisa para transações internacionais, foi ancora-la à cotação do petróleo, surgindo daí o que ficou conhecido como petrodólares, gerando crises no saldo em transações correntes nas economias globais, devido ao encarecimento nas importações de petróleo, em decorrência da crise gerada pela ancoragem do dólar à cotação internacional da commodity, principal matéria prima para a produção de combustíveis fósseis.
Desse modo, os Estados Unidos, aceitaram ainda, uma certa tolerância com déficits comerciais em relação a outros países, como forma de convencê-los a continuar usando o dólar como reserva global de valor. Isto é, o governo americano aceitou a importar mais que exportar em relação a outros países, justamente para que o dólar se mantivesse hegemônico nas transações internacionais
O fato de os Estados Unidos, exportar sua moeda para o mundo assim, por algum tempo, ajudou a conter seu déficit fiscal interno e a controlar a inflação com as medidas adotadas no governo de Ronald Reagan, durante a década de 1980. Contudo, os gastos militares cada vez crescentes e o socorro ao capitalismo liberal em 2008, além das operações do Fed de Quantitative Easing, que ajudou a evitar a deflação de 2019, aumentaram a dívida pública americana a 124% do PIB dos Estados Unidos.
E é isso o que o governo americano quer corrigir em um espaço de tempo razoável, para que os resultados positivos esperados comecem a serem percebidos e os ânimos enfim, se arrefeçam contra o governo empossado há quase três meses. A redução do déficit comerciais, são imprescindíveis nisso, e a política da política de reciprocidade tarifária, buscada no sentido de se buscar acordos bilaterais de comércio dos Estados Unidos com o restante do mundo é parte dessa estratégia.
Portanto, a dinâmica econômica agora, pede uma revisão dos tradicionais métodos da contabilidade rígida encabeçada na eterna briga entre custos e lucros. As empresas precisam se adaptar a um novo modelo de negócios onde a produtividade deva ser a prioridade na garantia de eficiência produtiva e para que justamente os custos caiam, em decorrência dos ganhos de escala, no pleno investimento em tecnologia de auxílio do trabalho, que garanta salários fortes para um mercado consumidor robusto.
E este é exatamente o problema chinês na atualidade; a China que prezou mais por ganhos de escala no aumento contínuo de produtividade no trabalho e no barateamento de custos com pesados subsídios estatais, agora sofre por não ter um mercado consumidor forte o suficiente que absorva parte da produção de bens industrializados que agora ameaça ficar encalhada nos portos ou nos estoques dos centros distribuidores, já que a renda per capita chinesa, não é forte o suficiente para estimular o consumo no mercado interno da China, o resultado é deflação.
Ou seja, a China vive um caso muito parecido ao dos Estados Unidos no final da década de 1920 e que desencadeou a Grande Depressão dos anos 1930, somente sanada com o início da Segunda Guerra Mundial.
Claro que dentro da visão liberal, basta um setor financeiro extremamente sólido que tudo se resolve, devido aos bons números no desempenho na segurança dos títulos de dívida pública dos Estados Unidos, sustentada vários fatores onde até o aumento da produtividade do trabalho é visto como agente que faria o déficit de 2,7% nas exportações americanas em relação ao restante dos demais economias do planeta.
Ocorre que é justamente isso que incomoda o atual governo norte-americano, e não os argumentos triviais que os economistas liberais ortodoxos sempre argumentam para sustentar suas teses ditas como infalíveis e inquestionáveis. O setor financeiro e de serviços, não tem gerado empregos que os americanos americanos precisam, apenas saldos positivos nas transações externas; o exemplo mais forte disso é o estado da Califórnia, terceira maior economia global, mas que apresenta os piores índices de pobreza dos Estados Unidos.
Comprar uma casa para o californiano é praticamente impossível e o número de viciados em drogas pesadas perambulando pelas ruas da maior cidade do estado, Los Angeles, é uma cena típica de filme dentro dos piores conteúdos pós-apocalípticos distópicos e que nenhum economista liberal do mercado financeiro liga.
Brazilianization
O Brasil serviu de referência negativa para o autor americano, Douglas Coupland, que publicou uma obra literária em 1991, intitulada: "Geração X: Contos para uma cultura acelerada", na qual ele cita o termo em alusão ao abrasileiramento da economia americana, já como consequência da estagflação dos anos 1970 e da implantação das políticas neoliberais no governo Ronald Reagan, na década de 1980, verificado no aumento da pobreza entre a população, e até no aparecimento de favelas nos Estados Unidos.
Em 2021, Alex Hochuli, revisitou o termo em uma publicação americana, especializada em políticas públicas; no texto, ele lembra: "o mundo está se tornando mais parecido com o Brasil. E esta é uma má notícia".
E Hochuli complementa: “Bem-vindo ao Brasil. Aqui as únicas pessoas satisfeitas com a sua situação são as elites financeiras e os políticos venais. Todo mundo reclama, mas todo mundo dá de ombros. Esta lenta degradação da sociedade não é tanto um trem descontrolado, mas mais uma montanha-russa nervosa, que ocasionalmente oferece promessas de ascensão, mas nunca se liberta dos trilhos”, diz o texto de Hochuli.
Assim, os termos ... “brazilification” ... e ... “brazilianization” ... também têm sido usados em contextos mais obscuros nos últimos anos: como uma espécie de alerta contra a diminuição da população branca na Europa e nos Estados Unidos.
Outro exemplo, de deterioração das condições de vida nos Estados Unidos, é a série animada Os Simpsons que estreou em 1990, como sátira de uma família americana tradicional, que se vira como pode para sobreviver com o salário do chefe de família, o único provedor da casa. Em um episódio exibido em 1996, Homer foi apontado como alguém que recebia quase 480 dólares por semana ou cerca de 25 mil dólares ao ano. Uma renda familiar considerada "sonho" por grande parte dos americanos de hoje.
Isto é, a preocupação com o empobrecimento da sociedade americana tem sido foco de estudo e preocupação de muitos especialistas e que agora o atual governo tem feito enfim, políticas no sentido de reverter a degradação social da população dos Estados Unidos, enquanto no Brasil as discussões difusas, ainda se perdem sobre se o país devesse aprofundar ainda mais em uma agenda liberal e abrir mão de seu desenvolvimento em nome da preservação ambiental, principalmente da floresta amazônica.
E este é o desafio do atual governo dos Estados Unidos, reestabelecer uma melhora contínua no padrão de vida do americano, para quem sabe, voltar aos tempos do "American Way of Life".
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